
Ontem a dra. Lúcia me disse que já não consegue visualizar seu fututo profissional. Nos últimos anos ela tem trabalhado tanto que algumas considerações até então inimagináveis já faz parte de suas reflexões. Dra. Lúcia é psicóloga há 25 anos e segundo ela, o ser humano entrou em colapso e ela não tem nenhuma vocação pr'a heroína. Aos 49 anos, seu olhar é límpido, fulminate e suas rugas só servem pr'a deixá-la ainda mais bonita.
rs...Fiquei imaginando a dra. Lúcia recebendo em sua clínica alguém que nasceu já com 80 anos. Álias, não a dra. Lúcia recebendo, mas esse alguém a procurando. Quantos traumas caberiam na cabecinha desse comtemplado!? Sim, porque a sensação de ser visto pelo mundo inteiro como alguém diferente e se achar inferior e desprezado por isso é uma das clamuras mais comuns nas salas da dra. Lúcia e de outros "doutores da cabeça" mundo afora.
Nascer aos 80, com rugas, cataratas, artrite e todas as fragilidades de um octagenário e ainda perder a mãe logo após o parto...O pai? rs...o pai de tão assustado com a feiúra do filho trata logo de deixá-lo na primeira porta que encontra.
Tudo bem, nem tudo é drama. Afinal, o jovem-velho deu a sorte de ser criado por uma cristã, infértil e que cuidava de um asilo. Assim a aparência não será necessariamente um problema a ser tratado. Mas...se o corpo é de um oitentão e sofre com os problemas de circulação e resistência dos ossos, a mente está cheia de dúvidas, anseios por descobertas como a de toda criança. E como se relacionar com as crianças que pensam como ele? Vai ser rejeitado em qualquer círculo infantil, não tem jeito.Dá pr'a imaginar o trabalho da dra. Lúcia com alguém que teve uma infância dessa?
E a adolescência,então? Ele lá com o corpo com as marcas de sessentão e não entendendo porque os pêlos crescem debaixo do braço, no peito...sem entender porque algumas partes do corpo aumentam de tamanho (até porque pr'a um corpo de mais de sessenta isso não é mesmo tão comum), afinal, os idosos com que ele convive provavelmente já se esqueceram desses detalhes há tempos.
Imagine o trevo no cérebro de um adolescente que de repente descobre que vive na contra-mão da vida. Enquanto os outros envelhecem, ele rejuvenesce. Bom? Ótimo? Será? As pessoas que você ama indo e você vindo, eles adoecendo e morrendo de velhice e você ficando cada vez mais sozinho. Afinal, sua direção é contrária; mesmo que o destino seja o mesmo.
Mas ainda bem que sempre acontecem coisas que servem de estímulo, não é? Um velho contando que foi atingido 7 vezes por raio, por exemplo, já é um estímulo e tanto pr'a deixar os medos de lado e se jogar na vida. Afinal, o futuro é um mistério tanto prá quem vai quanto prá quem vem.
Viajar pelo mundo, num barco, sem destino traçado...ajudaria bastante nesse processo de autoreconhecimento. Viajar é uma fuga para o encontro, necessário na vida de todos nós, pelo menos por uma só vez, fala verdade. Mas como desgraça pouca é bobagem, de repente suas viagens são interrompidas por causa de uma guerra e se desta vez seus amigos não foram vítimas do tempo, foram mortos por canhões inimigos.
O velho, agora bem mais jovem, então, volta prá casa e...está tudo lá, como antes; menos alguns que o tempo não mais permitiu que vivessem. Hora de recomeçar! Por onde? Pelo primeiro amor. Aquele, germinado na infância e que o tempo, apesar da distância o manteve preso - voluntariamente, é bem verdade - a ela. Sim, ele tinha o semblante de um idoso de oitenta, ela com a pele macia e o olhar brilhante de uma criança e mesmo assim uma semente ficou plantada nos corações dos dois.
Como amor que é bom é amor provado pelo tempo e por alguns outros percausos, ela resiste aos encantos do agora jovial apaixonado e quer mais é seguir sua estrada. Ela numa direção, ele noutra, como foi desde o início. Mas...por volta dos 40 dela e dos menos 40 dele...os caminhos se cruzam. Nada de destino. Ela é que trata de se render ao perceber que apesar de seguir uma estrada comum aos que a rodeavam, ela ficou só. Ele a esperava de braços e coração abertos.
Alguns anos de muito amor. Nada de traumas, de culpa. Aquele era o momento ideal. Velejaram mar adentro, se amavam quase que o dia todo, todos dias, numa grande casa sem mobília...até a tinta pr'a pintar as paredes servia para esquentar o relacionamento. Tudo na mais santa imperfeição humana.
Ele rejuvenescendo, ela envelhecendo e...grávida. Como ser pai se a cada ano ele está mais moço? Amanhã ou depois ele vai ter a mesma idade da filha. "A vida é efêmera!" Se o corpo é jovem, a maturidade agora é de alguém que assimilou muito bem as melhores lições da vida. Se a filha precisa da referência do pai, é preciso,então, abrir mão do seu grande amor, do orgulho de ser pai e seguir o que a vida lhe impôs: o caminho na contra-mão. Os amigos, a mulher da sua vida, a filha, vão por lá. Ele tem que ir por ali.
E vai. E vão.Viajar novamente é a melhor maneira de fugir sem se perder de si mesmo. E de lá, seja onde for, ter a clareza,a lucidez e a sensibilidade de desejar à quem ama, enquanto reconhece em si esse conceito, através de um poema, num postal:
Para as coisas importantes nunca é tarde demais,ou no meu caso, muito cedo para sermos quem queremos. Não há limite de tempo. Comece quando quiser.
Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior. (Espero que você faça o melhor). Espero que você veja as coisas que a assustam.
Espero que sinta coisas que nunca sentiu.
Espero que conheça pessoas com diferentes opiniões.
Espero que viva uma vida da qual se orgulhe
Espero que tenha força para recomeçar novamente.
Pensando bem...a dra. Lúcia nunca vai ter um paciente desse no seu consultório. Não. Quem,apesar de todas adversidades, mantém esses desejos vivos na alma, não precisa de uma psiquiatra, de um psicólogo, de um divã.
Brad Pitt disse em entrevista ao jornal "El País" da Espanha que o filme influenciou seu comportamento com as pessoas que ele ama. Ele está se entregando e aproveitando ainda mais os momentos ao lado delas [pessoas que ele ama].
Os 167 minutos de " O curioso caso de Benjamin Button" permitem olhares diversos, sobre a obra e sobre a vida. Por enquanto, "viva uma vida da qual se orgulhe" é o bastante.
Dra. Lúcia,com certeza, fez uma leitura mais complexa e muito mais brilhante do filme que assistimos mas fiquei com a impressão de que ela poderá adotar essa frase pr'a resumir sessões de seus pacientes.
7 comentários:
Oi, meu fututo quem sabe, amigo.....rs
Acabei de ler seu post brilhante. Impecável nas suas colocações e reflexões.
Não vi o filme ainda, mas li o livro de F. Scott Fitzgerald. Quando o li me lembrei de um outro: " O retrado de Dorian Gray".
Sabe, acho que mesmo sem nascer velho e ir ao encontro da juventude e de toda uma inversão no tempo em nós mesmos ou um pacto com seu auto-retrato para que sua juventude congelasse naquele momento, às vezes penso que de certa forma, como vc mesmo disse, caminhamos na nossa própria contra-mão; ainda que sem "aberrações" de um parto ou de um pacto.
Vamos contra o tempo, contra o vento da nossa vida, daquilo que acreditamos. Isso me assusta. De verdade. Quando eu sinto isso, paro tudo, revejo tudo, piro....rs
Acho que muitas vezes nos corrompemos, perdemos o mais importante em nós mesmos e com isso, podemos perder mais que a juventude, mais que a chance de ter ou não rugas, ser ou não desejados. Uma vacilada e...
Há um instante que é agora. Já. Nem um segundo a mais. Nem um segundo antecipado. Se ele passar........ahhhhhhhhhh......
Seu texto é triste, o conto é triste, assim como o filme deve ser, mas com certeza nos leva a pensar que a vida é breve demais. Estamos de passagem. Ela é uma só e eu nunca vou ter a chance de voltar atrás ou adiantar o tempo.
Caramba, isso é, algumas vezes, desesperador.Posso estar indo à meu favor ou contra eu mesma e algumas vezes isso pode nos envelhecer ou nos rejuvenecer demasiadamente. Seria bom rejuvenecer, se envelhecer não fosse tão importante e embora sofrido em alguns aspectos, vital...
Aiiiiiiiiiiiiii....pirei. Estou me internando e tomando uma boa dose de prozac.
Trégua................rs
Amei seu texto, meu amigo!
............Cris Animal
inspirado daniel, excelente post. Vi o filme neste sábado, e tb fiquei com uma série de indagações. mas já é tarde e estou cansado para colocá-las por escrito, hehehe
Grande abraço!
Também assisti ao filme, é lindo, divaguei, filosofei, ri, chorei e foi tudo muito bom.
Abraços.
Vem cá,CRIS!Que medo é esse de se perder,moça? Você tem percebido essa inconstância, esse "caminhar na própria contra-mão" com muita frequência? Isso é normal, natural ou um prenúncio de insanidade administravel?
Depois da vitória do seu Inter, GÉRSON, aposto que você está com toda disposição possível prá expor suas indagações.Seria bom conhecê-las. Diz aí, colorado!
Chorou em que parte, BELA?
Acho que é medo. Pode ser!
Pode ser proteção. Pode ser loucura. Pode ser apenas uma espera como outra qualquer: ainda acerto a mão....rs
A contra-mão me assuta. Muito. Envelhecer e / ou rejuvenescer não. Mesmo hipotética a situação tanto o envelhecer quanto o rejuvenescer se assemelham- ao menos- é inegável ao final ou início da linha. O "tal" túnel...A passagem. O que é inevitável inevitável está!
Mas a contra-mão... Essa sim, é dose prá leão!
Rimou, né?rs
Show de texto, Daniel Reiner.
Muito bom vir aqui.
Bjssss
Ah, e o que importa,também, o que seja,não é CRIS!? As vezes tudo que se quer é não encontrar as respostas, principalmente quando já as tem.BEIJOS!
Bem...não sei qual conotação você dá a essa "contra-mão", LIA. Contra-mão como sinônimo de caminho errado,perdido,realmente assusta.Mas o susto, nesse caso acaba sendo fator positivo, afinal, só se assusta quem se dá conta de que está na contra-mão. Quem não percebe isso não se assusta nunca e segue em direção a...não sei...algum precipício?
NO caso do Benjamin Button a contra-mão é que o caminho certo pr'a ele. É como se duas pessoas fossem dar uma volta em torno da Terra. Ambos saem do Rio de Janeiro. Um vai pelo Atlântico, o outro por Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul,Paraguai, Argentina, Chile, Oceano Pacifico... e no meio do caminho se encontram...No final ambos chegam ao mesmo destino.
Mais ou menos "assustador"?
BEIJO CARINHOSO!
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